Normas de atenção humanizada do recém-nascido de baixo-peso (método canguru) Fonte: www.aleitamento.med.brÁrea da Saúde da Criança e Aleitamento Materno
Secretaria de Políticas De Saúde
Ministério da Saúde
Governo Federal
I - Introdução
Estas normas deverão ser observadas nas Unidades Médico-Assistenciais integrantes do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde-SUS. As Unidades que já possuem esse sistema de atendimento deverão manter o que vêm fazendo, introduzindo apenas as novas adaptações no sentido de melhorar a eficiência e eficácia da atenção Considerando que os avanços tecnológicos para diagnóstico e manuseio de recém-nascidos enfermos, notadamente os de baixo-peso, melhoraram de forma dramática as chances de vida desse grupo etário. Considerando que o adequado desenvolvimento dessas crianças é determinado por um equilíbrio quanto ao suporte das necessidades biológicas, ambientais e familiares, cumpre estabelecer uma contínua adequação tanto da abordagem técnica quanto das posturas que impliquem em mudanças ambientais e comportamentais com vistas a maior humanização do atendimento.
A adoção dessa estratégia pode ser essencial na promoção de uma mudança institucional na busca de atenção à saúde, centrada na humanização da assistência e no princípio de cidadania da família Entende-se que as recomendações aqui contidas deverão ser consideradas como um mínimo ideal para a tomada de condutas que visem proceder a um atendimento adequado do recém-nascido de baixo-peso, com procedimentos humanizados, objetivando maior apego, incentivo ao aleitamento materno, melhor desenvolvimento e segurança, inclusive quanto ao manuseio e relacionamento familiar
II - Definição
Método Canguru é um tipo de assistência neonatal que implica em contato pele a pele precoce, entre a mãe e o recém-nascido de baixo-peso, de forma crescente e pelo tempo que ambos entenderem ser prazeroso e suficiente, permitindo dessa forma uma participação maior dos pais no cuidado ao seu recém-nascido A posição canguru consiste em manter o recém-nascido de baixo peso, ligeiramente vestido, em decúbito prono, na posição vertical, contra o peito do adulto Só serão considerados como "Método Canguru" os sistemas que permitam o contato precoce, realizado de maneira orientada, por livre escolha da família, de forma crescente, segura e acompanhado de suporte assistencial por uma equipe de saúde adequadamente treinada
III - Vantagens
aumentar o vínculo mãe-filho menor tempo de separação mãe-filho, evitando longos períodos sem estimulação sensorial estímulo ao aleitamento materno, favorecendo maior freqüência, precocidade e duração maior competência e confiança dos pais no manuseio do seu filho de baixo-peso mesmo após a alta hospitalar melhor controle térmico menor número de recém-nascidos em unidades de cuidados intermediários devido a maior rotatividade de leitos melhor relacionamento da família com a equipe de saúde diminuição de infecção hospitalar menor permanência hospitalar
IV - População a ser atendida
Gestantes com situações clínicas ou obstétricas com maior risco para o nascimento de crianças de baixo-peso Recém-nascidos de baixo-peso, desde o momento de admissão na Unidade Neonatal até a sua alta hospitalar, quando deverão ser acompanhados por ambulatório especializado Mães e pais, que com suporte da equipe de saúde deverão ter contato com o seu filho o mais precoce possível e com orientação adequada participar do programa
V - Aplicação do método
O método será desenvolvido em três etapas:
1ª Etapa
Período após o nascimento de um recém-nascido de baixo-peso, que impossibilitado de ir para o alojamento conjunto, necessita de internação na unidade. Os procedimentos nessa etapa deverão seguir os seguintes cuidados especiais:
1.1 Orientar a mãe e a família sobre as condições de saúde da criança, ressaltando as vantagens do método. Estimular livre e precoce acesso dos pais à Unidade Neonatal, propiciando sempre que possível o contato tátil com a criança. É importante que essas visitas sejam acompanhadas pela equipe assistencial, para que orientações como: medidas de controle de infecção (lavagem adequada das mãos), informações sobre os procedimentos hospitalares utilizados e as particularidades ambientais possam ser melhor compreendidas pela família.
Nessa etapa deverão ser iniciadas medidas para estímulo a amamentação. Dessa forma, cuidados com as mamas, ordenha manual e armazenagem do leite ordenhado devem ser ensinados. A co-participação da mãe no estímulo à sucção, na administração do leite ordenhado, além dos cuidados de higienização devem ser implementados.
Nas situações que as condições clínicas da criança permitirem, deverá ser iniciado contato pele a pele direto, entre mãe e criança, progredindo até a colocação do recém-nascido sobre o tórax da mãe ou do pai.
1.2 Ressaltar sempre a importância da atuação da mãe e da família na recuperação da criança.
1.3 Após o parto, os primeiros cinco dias deverão ser utilizados para prestar todos esses ensinamentos à mãe e à família. Portanto deve ser assegurado à puérpera a permanência na unidade hospitalar, pelo menos durante esse período, recebendo todo o suporte assistencial necessário.
1.4 Decorrido esse início, as crianças que não preencherem os critérios de entrada na etapa seguinte (2ª) e havendo necessidade da volta da mãe ao domicílio, deverá ser assegurado a puérpera as seguintes condições:
a) vinda diária à unidade hospitalar onde manterá contato com o seu filho, receberá orientação e manterá a ordenha do leite.
b) auxílio para passagem em transporte coletivo, para vinda diária à unidade de saúde.
c) refeições, durante a permanência diurna na unidade (lanche pela manhã, almoço e lanche à tarde).
d) espaço adequado para a permanência, que permita descanso e possa ser utilizado para palestras. Esse espaço servirá também para congraçamento entre as mães o que propiciará maior confiança materna.
e) o pai terá livre acesso à unidade e será estimulada a sua participação nas reuniões com a equipe de saúde.
2ª Etapa
O recém-nascido encontra-se estabilizado e poderá ficar com acompanhamento contínuo pela sua mãe. Nessa etapa, após o período de adaptação e treinamento realizados na etapa anterior, a mãe e a criança estarão aptas a permanecerem em enfermaria conjunta onde a posição- canguru será realizada pelo maior tempo possível. Essa enfermaria funcionará como um "estágio" pré alta hospitalar da díade mãe e filho.
2.1 São critérios de elegibilidade para a permanência nessa enfermaria:
2.1.1 Da mãe
a) certificar-se que a mãe quer participar e tem disponibilidade de tempo e que haja rede social de apoio.
b) assegurar que a decisão seja tomada através de consenso entre mãe, familiares e profissionais de saúde.
c) capacidade de reconhecer as situações de risco do recém-nascido ( mudança de coloração da pele, pausas respiratórias, regurgitações e diminuição de movimentação).
d) conhecimento e habilidade para a colocação da criança em posição canguru.
2.1.2- Da Criança
a) estabilidade clínica.
b) nutrição enteral plena ( peito, sonda gástrica ou copo )
c) peso mínimo de 1250g.
d) ganho de peso diário maior que 15g.
2.2 Para que haja ganho de peso, deve-se garantir a amamentação a cada duas horas no período diurno e a cada 3 horas no período das 00:00 - 06:00h.
2.3 Às crianças que não apresentarem ganho adequado de peso, deve ser realizado complementação láctea com leite posterior da própria mãe via sonda gástrica ou copo.
2.4 A utilização de medicamentos orais (complexo vitamínico, medicação contra o refluxo gastro-esofágico, xantinas e etc.) não contra-indica a permanência nessa enfermaria.
2.5 A administração de medicação intra-venosa intermitente, através de dispositivo intra-vascular periférico, também não contra indica a permanência em posição-canguru.
2.6 São critérios para a alta hospitalar com transferência para a 3ª etapa:
a) mãe segura, bem orientada e familiares conscientes quanto ao cuidado domiciliar da criança.
b) mãe psicologicamente motivada para dar continuidade ao trabalho iniciado na maternidade.
c) compromisso materno e familiar para a realização do método por 24 horas/dia.
d) garantia de retorno à unidade de saúde e ter conhecimento que esse retorno é necessário de maneira bastante freqüente.
e) peso mínimo de 1500g.
f) criança com sucção exclusiva ao peito e ganho de peso adequado nos três dias que antecederem a alta.
g) se houver necessidade de complementação da dieta, que essa não esteja sendo ministrada por sonda gástrica.
h) condição de acompanhamento ambulatorial assegurada, sendo que na primeira semana a freqüência deverá ser de 3 consultas, na segunda semana duas consultas e da terceira semana em diante pelo menos uma consulta até o peso de 2500g.
i) condição de recorrer à unidade hospitalar de origem a qualquer momento de urgência quando ainda na terceira etapa.
3ª Etapa
3.1 Ambulatório de acompanhamento.
São atribuições do ambulatório de acompanhamento:
a) realizar exame físico completo da criança tomando como referências básicas o grau de desenvolvimento, ganho de peso, comprimento e perímetro cefálico, levando-se em conta a idade gestacional corrigida.
b) avaliar o equilíbrio psico-afetivo entre a criança e a família.
c) corrigir as situações de risco como: ganho inadequado de peso, sinais de refluxo, infecção e apnéias.
d) orientar e acompanhar tratamentos especializados tais como: exame oftalmológico, avaliação audiométrica e fisioterapia motora.
e) orientar esquema adequado de imunizações.
3.2 O seguimento ambulatorial deve apresentar as seguintes características:
a) ser realizado por médico treinado e familiarizado com o seguimento do recém-nascido de risco.
b) observar a periodicidade já referida em item anterior.
c) ter agenda aberta, permitindo retorno não agendado caso a criança necessite.
d) a criança é que determinará o tempo de permanência em posição-canguru, de modo geral isso ocorre quando esta atinge o termo ou o peso de 2000g.
e) após o peso de 2500g, o acompanhamento passa a ser orientado de acordo com norma para acompanhamento de crescimento e desenvolvimento do Ministério da Saúde.
VI - Recursos para a implantação
1 - Recursos Humanos
Recomenda-se que toda a equipe de saúde responsável pelo atendimento da díade mãe e filho, conheça toda a extensão e importância do método e esteja adequadamente treinada, para que esse possa ser exercido de maneira plena. Enfatizamos portanto a necessidade da mudança de comportamento e filosofia profissional para que a implantação dessa atenção humanizada não sofra solução de continuidade em nenhuma de suas etapas. Sempre que possível essa equipe multiprofissional deve ser constituída por:
a) Médicos
neonatologistas (cobertura de 24 horas)
obstetras (cobertura de 24 horas)
pediatras com treinamento em seguimento do RN de risco
oftalmologista
b) Enfermeiras (cobertura de 24 horas)
c) Auxiliares de enfermagem (na 2ª etapa uma auxiliar para cada 6 binômios com cobertura de 24 horas)
d) Psicólogos
e) Fisioterapeutas
f) Terapeutas ocupacionais
g) Assistentes sociais
h) Fonoaudiólogos
i) Nutricionistas
2 - Recursos Físicos
2.1 Os setores de terapia intensiva neonatal e de cuidados intermediários deverão obedecer as normas já padronizadas para essas áreas e permitir o acesso dos pais com possibilidade de desenvolvimento do contato tátil descrito nas Etapas 1 e 2 dessa norma. É importante que essas áreas estejam adequadas à permitir a colocação de assentos removíveis (cadeiras - bancos) para inicialmente facilitar a colocação em posição canguru.
2.2 Os quartos ou enfermarias para a 2ª Etapa deverão obedecer a norma já estabelecida para alojamento conjunto, com aproximadamente 5m² para cada conjunto leito materno/berço do recém-nascido.
2.3 Recomenda-se que a localização desses quartos permita facilidade de acesso ao setor de cuidados especiais.
2.4 Objetivando melhor funcionamento, o número de díades por enfermaria, deverá ser de no máximo 6.
2.5 Os postos de enfermagem deverão se encontrar próximo à essas enfermarias.
2.6 Para cada enfermaria são necessários banheiro ( com dispositivo sanitário, chuveiro e lavatório) e um recipiente com tampa para recolhimento de roupa usada.
3 - Recursos materiais
3.1 Na 2ª etapa, na área destinada a cada díade, serão localizados: cama, berço (de utilização eventual mas que permita aquecimento e posicionamento da criança com a cabeceira elevada), aspirador a vácuo central ou portátil, cadeira e material de asseio.
3.2 Balança pesa bebê, régua antropométrica, fita métrica de plástico e termômetro.
3.3 Carro com equipamento adequado para reanimação cárdio - respiratória que deverá estar localizado nos postos de enfermagem.
VII - Avaliação do método
1. Sugere-se que periodicamente sejam realizadas as seguintes avaliações:
a) morbidade e mortalidade neonatal.
b) taxas de reinternação.
c) crescimento e desenvolvimento.
d) grau de satisfação e segurança materna e familiar.
e) prevalência do aleitamento materno.
f) desempenho e satisfação da equipe de saúde.
g) dos conhecimentos maternos adquiridos quanto aos cuidados com a criança.
h) do tempo de permanência intra-hospitalar.
2. A equipe técnica da Saúde da Criança/MS dispõe-se a fornecer modelo de protocolo para obtenção dos dados dessas avaliações.
VIII - Normas gerais
1. A adoção do "Método Canguru" visa fundamentalmente uma mudança de atitude no manuseio do recém-nascido de baixo-peso com necessidade de hospitalização e da sua família.
2. O método descrito não é um substitutivo das unidades de terapia intensiva neonatal nem da utilização de incubadoras, já que estas situações têm as suas indicações bem estabelecidas.
3. Não deve ser considerado que o método objetive apenas economizar recursos humanos e recursos técnicos, mas fundamentalmente aprimorar a atenção.
4. O início da atenção adequada ao RN antecede ao período do nascimento. Durante o pré-natal é possível identificar mulheres com maior riso de recém-nascidos de baixo-peso e à essas mulheres deve ser oferecido informações sobre cuidados médicos específicos e humanizados.
5. Nas situações em que há risco de nascimento de crianças com baixo-peso é recomendável encaminhar a gestante para cuidados de referência, uma vez que esta é a maneira mais segura.
6. Na segunda etapa não se estipula obrigatoriedade de tempo em posição- canguru. Essa situação deve ser entendida como um fato que ocorra baseado em segurança no manuseio da criança, prazer e satisfação da criança e da mãe.
7. Na terceira etapa, para maior segurança, recomenda-se a posição-canguru em tempo integral.
8. Deverá ser estimulada também a participação do pai e outros familiares na colocação da criança em posição-canguru.
9. A presença de berço no alojamento da mãe e filho, com possibilidade de elevação da cabeceira, permitirá que a criança ali permaneça na hora do exame clínico, durante o asseio da criança e da mãe e nos momentos que a mãe e a equipe de saúde acharem necessários.
10. São atribuições da equipe de saúde:
a) orientar a mãe e a família em todas as etapas do método.
b) oferecer suporte emocional e estimular os pais em todos os momentos.
c) encorajar o aleitamento materno.
d) desenvolver ações educativas abordando conceitos de higiene, controle de saúde e nutrição.
e) desenvolver atividades recreativas para as mães durante o período de permanência hospitalar.
f) participar de treinamento em serviço como condição básica para garantir a qualidade da atenção.
g) orientar a família na hora da alta hospitalar, criando condições de comunicação com a equipe e garantir todas as possibilidades já enumeradas de atendimento continuado.
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