Quinta-feira, 9 de setembro de 2010 :: 1.570.192 visitas       
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Em breve






























SALA DE LEITURA
O trabalho em rede e o processo de humanização
Eliana Ribas

O sistema de saúde pública se vê diante de um enorme desafio: estabelecer um processo contínuo de troca de informações e intercâmbio de experiências entre os vários programas que o compõe. O Ministério da Saúde tem procurado, cada vez mais, enfrentar essa tarefa buscando metodologias que a viabilize e desenvolvendo programas que possam convergir para a realização dos princípios básicos para a saúde propostos pelo SUS. 
 
Enfrentar o desafio da comunicação e articulação entre programas é fundamental para o fortalecimento do próprio sistema de saúde como um todo e, especialmente, para a difusão de uma nova cultura de qualidade no serviço público do Brasil. 
 
Para que os programas possam fazer face e esse desafio, considerando-se a extensão do território nacional, a diversidade de realidades que a compõem e a quantidade do trabalho realizado neste setor, não há outro caminho senão a apropriação de novas tecnologias de informação e a articulação de ferramentas do mundo digital às formas tradicionais de contatos presenciais e vivenciais.  
 
Estamos passando por transformações profundas nas instituições e assistindo ao surgimento de novas formas de trabalho baseadas em conceitos de interatividade, parceria, conectividade, rede, etc., cuja assimilação crítica é indispensável para o fortalecimento de qualquer instituição. É preciso ter isso em mente quando propomos novas práticas para as instituições de saúde. 
 
Considerando essa realidade o PNHAH incorporou em sua metodologia básica de trabalho – construção de uma Rede Nacional de Humanização – a associação de novas formas de comunicação às suas formas mais tradicionais. Podemos destacar, em princípio, três justificativas para esse esforço de associação de novas tecnologias de comunicação: 1. melhora da visibilidade e da confiabilidade da instituição perante a comunidade através da coletivização das informações sobre as ações realizadas e os resultados alcançados; 2. maior agilidade nos processos a serem desenvolvidos através do conhecimento de novas metodologias já desenvolvidas em outras iniciativas; 3. maior possibilidade de estabelecimento de parcerias.  
 
No entanto, mesmo contando com um grau razoável de sensibilização das instituições para sua inserção numa rede ampla de trabalho e troca de informações e experiências com outras instituições (seja com instituições de saúde ou com instituições representativas de outros setores da comunidade), temos de enfrentar um segundo desafio. Este desafio se constitui no processo de capacitação das instituições e de seus profissionais para que uma metodologia de trabalho em rede, presencial ou virtual, possa ser utilizada com eficácia, agilidade e discernimento crítico. Grande parte das dificuldades encontradas num processo de capacitação desta natureza está na necessária consideração das particularidades das instituições e das diferenças existentes entre elas. 
 
As Iniciativas de Humanização na Assistência Hospitalar e o Trabalho em Rede 
 
O fortalecimento das iniciativas de humanização desenvolvidas no sistema hospitalar passa necessariamente pela transição entre ações isoladas e frutos do empenho de setores específicos do hospital, e a formação de redes horizontais de ação que possibilitam maior intercâmbio e eficácia na implementação dos projetos de humanização e das políticas públicas que os sustentam. 
 
Toda instituição pública é uma organização idealmente destinada a atender a comunidade, embora nem sempre isto aconteça da forma desejada. Pressionadas por grandes demandas, por carências de recursos materiais e humanos e atuando muitas vezes em situações-limite, as preocupações de muitas dessas instituições, especialmente as instituições hospitalares, acabam freqüentemente se circunscrevendo às questões que acontecem em seu espaço interno, o que as torna isoladas e pouco permeáveis a um contato mais aberto e efetivo com a comunidade da qual fazem parte e para qual atuam. Por melhor que seja a ação dessas instituições os resultados de seu trabalho permanecem pouco conhecidos e compartilhados com outras instituições. 
 
O trabalho em rede possibilita que as ações realizadas e os efeitos alcançados possam ir além dos limites das instituições, alcançando e fortalecendo outras instituições e a comunidade mais ampla. Somente esse “ir além” garante, de fato, o caráter público a que se destina suas ações. 
 
A noção de rede possibilita o questionamento da rigidez implícita no conceito convencional de “instituição pública” - espaço institucional de organização vertical, de forte grau de burocratização na realização de suas ações, de associação quase que exclusiva à noção de “estatal” e em oposição a formas de participação direta da comunidade.  
 
A reformulação da noção de caráter público de forma mais moderna e afinada ao momento que vivemos, está associada à possibilidade do deslocamento do eixo central da atenção de questões particulares e setoriais das instituições para a realidade que dá sentido à sua existência. Realidade, neste contexto, é entendida como expressão indissociável do si mesmo institucional, da presença participativa de outras instituições e da comunidade. Nesse sentido, o referencial para sua atuação se encontra na ação viva do si mesmo institucional enfrentando os problemas da comunidade que são a razão de sua existência. 
 
O caráter público de uma instituição, ou de um projeto por ela implementado, está justamente nessa possibilidade de ter um referencial de atuação que torna possível a articulação entre a instituição e o todo do qual faz parte. Tal possibilidade coloca a instituição como protagonista de suas ações, de seus processos de gerenciamento, de suas condições de existência e de criação de possibilidades modificadas de futuro. 
 
No entanto, projetos institucionais precisam de apoios e articulações para se tornarem processos de ação comunitária. É aqui que surge a noção de rede. Ela pode ser utilizada para representar as relações que uma instituição estabelece entre seus vários setores e projetos, entre ela e os usuários, entre ela e outras instituições públicas ou privadas, entre ela e representantes da comunidade mais ampla. 
O trabalho em rede estimula seus integrantes a participar da experiência de seus outros componentes. Esse estímulo de convivência produz dois movimentos: o de auto-conhecimento e o de participação mais ativa e solidária na comunidade. Esses movimentos são complementares e indissociáveis, criando relações que provocam mudanças numa cultura amparada em vínculos de dependência e na tradição hierárquica que tanto marcaram as ações nos serviços públicos brasileiros. Redes abertas permitem que as informações possam ser compartilhadas por todos, sem canais reservados. Permitem, portanto, que se favoreça a formação de uma cultura da participação, da cooperação, da co-responsabilidade, mas também da autonomia. 
 
Na lógica do trabalho em rede está presente um caráter pedagógico no qual a democratização da informação e a vivência da liberdade e responsabilidade produzem em seus componentes uma mudança de hábitos e posicionamentos frente à realidade. Atitudes de isolamento e competição podem ser, progressivamente, substituídos por atitudes de solidariedade e reciprocidade. 
 
As ações propostas pelo PNHAH estão organizadas de forma que uma rede se estruture e que haja um estímulo, cada vez maior, a se trabalhar desse modo. Entre as ações há, por exemplo, a priorização ao estabelecimento de parcerias entre alguns programas desenvolvidos no Ministério da Saúde; o estímulo ao apoio mútuo entre várias instâncias do sistema de saúde e à criação de grupos, seja de multiplicadores de processos de capacitação em âmbito nacional ou de trabalho de humanização nos hospitais; e a intenção de formação de centros irradiadores de experiências e formação profissional na área da humanização da saúde. Todas essas propostas alimentam e ampliam a rede, mas, ao mesmo tempo, encontram nela apoio, reconhecimento e sustentação.


 

Em breve









 
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